Há décadas, os historiadores discutem os efeitos para os
povos africanos da proibição do tráfico de pessoas
escravizadas em meados do século XIX. Nos entornos da
colônia portuguesa de Angola, principal origem das pessoas
capturadas e levadas para asAméricas, o crescimento de
uma economia agrícola colonial se deu simultaneamente à
expansão de um comércio de longa distância, que trazia
marfim e cera de abelha por caravanas vindas de regiões a
centenas ou mesmo milhares de quilômetros do mar, de
territórios que os europeus não detinham nenhum controle.
Este livro procura discutir a formação desse comércio por
pessoas de carne e osso, que negociavam mercadorias, mas
também poder político, condições de trabalho e visões de
mundo, em tramas complexas, violentas e ainda muito
pouco conhecidas. Analisando os diários de um dos líderes
da comunidade mercantil que se instalou no reino africano
do Bié, o português Silva Porto, tais questões são abordadas
a partir de fragmentos do dia a dia desses