Psicanálise surge na aurora do século XX como um campo do saber que vai na contracorrente dos avanços civilizatórios, apontando, como afirma Sigmund Freud, para o mal-estar inerente à entrada na cultura e seus dispositivos. O campo da saúde – assim como o conhecemos na modernidade –, por sua vez, tem seu arsenal teórico e prático pautado em uma tentativa de disciplinarização dos corpos e espaços, como bem apontou Michel Foucault ao longo de sua obra. Dois campos, duas éticas, portanto. Entre eles uma interseção: a clínica, que recolhe os efeitos desse mal-estar, seja ele nomeado como angústia, sofrimento ou doença. A pergunta que invariavelmente se coloca para todo aquele que, atravessado pela psicanálise, se aproxima do campo da saúde é: o que pode a psicanálise frente aos discursos estabelecidos no campo da saúde, hoje em dia marcados tão fortemente pela conjunção entre o discurso universitário e o discurso capitalista? O livro que ora temos em mãos trata-se de uma abertura de pos